ATUAL CONFIGURAÇÃO DA IGREJA NO BRASIL

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ANÁLISE SOCIOLÓGICA

Pe. José Carlos Pereira, CP   

Na esteira do Concílio Vaticano II, a Igreja no Brasil celebra cinquenta anos de mudanças, embalada por quatro grandes Conferências do Episcopado Latino Americano e Caribenho (Medellín – 1968; Puebla – 1979; Santo Domingo – 1992; e Aparecida – 2007), e pelo pontificado de cinco Papas com linhas divergentes, culminando no atual pontificado de Papa Francisco que veio coroar essas mudanças, conferindo não apenas a Igreja do Brasil, mas a Igreja de todos os Continentes, ou seja, universal, um rosto latino-americano, com forte tendência brasileira, mostrando que a Igreja do Brasil tem certa influência nos novos rumos que a Igreja Católica vem tomando nos últimos anos. Um Papa com origens no nosso país vizinho, mas que imprimiu sua marca na ultima Conferência do Episcopado Latino Americano e Caribenho (Conferência de Aparecida – 2007), dando grande contribuição no último e mais importante Documento pastoral da Igreja deste Continente, que agora é levado para todo o mundo através da sua Exortação Apostólica, Evangelii Gaudium, e por práticas e experiências do Papa Francisco vividas nestas terras, sobretudo no evento da Jornada Mundial da Juventude, realizada no Rio de Janeiro em 2013. O Papa Francisco representa o coroamento dessas mudanças refletidas nos diversos setores da Igreja, inclusive na sua configuração estrutural, territorial e conjuntural, como veremos nesta análise sociológica dos dados numéricos da última pesquisa realizada pelo CERIS, em parceria com a Promocat (2014).

Mudanças nas configurações da Igreja sejam elas estruturais, territoriais, teológicas ou pastorais, não vêm isoladas. Elas são acompanhadas de outras mudanças que refletem diretamente em aspectos, como, por exemplo, no quadro de bispos, padres, diáconos, religiosos, religiosas, e também dos adeptos dos Institutos laicais de vida consagrada, que em linguagem sociológica são conhecidos como gerenciadores do sagrado, como classificou Pierre Bourdieu. Os dados numéricos dessas últimas pesquisas revelam uma realidade paradoxal, que nos faz perguntas igualmente ambíguas, como, por exemplo, se as atuais mudanças territoriais e estruturais da Igreja no Brasil, e no mundo, influenciaram nas mudanças teológicas e pastorais, ou se as mudanças teológicas e pastorais trazidas pelo Pontificado do Papa Francisco influenciaram nas mudanças territoriais e estruturais? Ou ainda, se essas mudanças – territoriais, estruturais, teológicas e pastorais – influenciaram na atual configuração do quadro do clero brasileiro nestes últimos anos, ou se o quadro do clero brasileiro influenciou mudanças de pensamento teológico e de linhas pastorais? Essas e outras questões estão presentes nesta análise, a qual busca esmiuçar os resultados dessa pesquisa, comparando com outras anteriores, e tecendo assim uma análise crítica dos resultados apresentados, a fim de apontar caminhos que ajudarão na compreensão da atual conjuntura da Igreja no Brasil e suas configurações territoriais e demográficas.

As pesquisas apresentaram quadros técnicos que nos mostram mudanças, isto é, alterações nos diversos aspectos supracitados, sobretudo no que se refere ao quadro territorial e demográfico, como, por exemplo, os regionais da CNBB (Conferência dos Bispos do Brasil); as Circunscrições Eclesiásticas e o número de paróquias. Relacionadas a essas mudanças, foram apresentadas também alterações no clero diocesano e religioso, e na vida religiosa feminina, revelando assim, um novo rosto da Igreja no Brasil a partir destes dois elementos (territorial e demográfico).

Os dados no número de presbíteros foram cruzados com o número de habitantes e esse cruzamento revelou uma realidade ainda preocupante no âmbito pastoral e missionário da Igreja, pois o déficit de padres por habitantes ainda é grande e, apesar do aumento no número de presbíteros, ainda há um número muito elevado de habitantes por padres, ou seja, a população brasileira cresce mais que o número de padres, o que representa um desafio pastoral e vocacional, sobretudo no atendimento desta população que cresce numericamente, mas não cresce igualmente no número de vocações, ou de ordenações. Além disso, a pesquisa chama a atenção para o decréscimo latente no número de religiosas (freiras). Essas e outras questões estão presentes nesta análise. Vejamos cada uma dessas mudanças, através dos quadros com os resultados das pesquisas, e que conclusão extraímos delas para compreender a realidade social da Igreja no Brasil.

De antemão, vale destacar que essa análise evidenciará cinco conceitos básicos nos quais se apoiam a sociologia moderna, sobretudo o pensamento de um de seus maiores expoentes, Zymunt Bauman (2001:15), que são: a emancipação ou liberdade; a individualidade; o tempo/espaço; o trabalho e a comunidade. São conceitos em torno dos quais as narrativas ortodoxas da condição humana tendem a se desenvolver e que uma análise sociológica sobre a realidade da Igreja não pode prescindir se quiser estar sintonizada com essa atual modalidade de modernidade, a qual Bauman classifica como “modernidade líquida”, cujas características são o imediatismo, a leveza e a liquides, no sentido da descartabilidade das coisas e das pessoas, dos valores efêmeros, da mudança de valores ou de paradigmas dantes considerados sólidos e imutáveis numa outra modalidade de modernidade, classificada por Baumam como “modernidade sólida”. Assim, a Igreja vive numa realidade paradoxal, ou beligerante, pois está socialmente num contexto da modernidade líquida, trazida pelo fenômeno da globalização, mas vivendo ainda a modernidade sólida, no sentido de preservar valores que na atual modernidade são dissolvidos. Enquanto a passagem de uma a outra modernidade acarretou, e está acarretando profundas mudanças em todos os aspectos da vida humana, na sociedade, a Igreja ainda resiste a fazer essa passagem, como se estivesse fora dessa sociedade, porém tendo que enfrentar grandes desafios, os quais refletem direta ou indiretamente na sua atual configuração, sobretudo no que tange a demografia. Não queremos dizer com isso que a Igreja tenha que aderir a essa modalidade de modernidade, mas que ela precisa encontrar meios para responder aos desafios e as mudanças que essa modernidade traz, e que afeta o seu quadro de pessoas.

Os quadros aqui apresentados revelam uma Igreja em transição. Assim, a proposta aqui é ajudar na reflexão dessa transição da Igreja no Brasil, auxiliando a repensar os conceitos e esquemas cognitivos que ainda são usados pela Igreja para lidar com um mundo em constantes mudanças, as quais estão presentes nos resultados das pesquisas aqui apresentadas, que são resultadas da profunda mudança que o advento da “modernidade fluida” produziu na condição humana, a qual não pode ser negada e tampouco subestimada. Dividimos essa reflexão em três momentos e em cada um deles esmiuçamos os dados numéricos da pesquisa, no intuito de elucidar essa realidade da Igreja no Brasil.

(Esta é apenas a introdução da Análise feita pelo Pe. José Carlos Pereira e apresentada ao CERIS)

Informativo Oficial do Censo 2014

Referência: Censo Anual da Igreja Católica no Brasil – CaicBr

São Paulo, janeiro de 2014.

Caríssimo(a) irmão(ã),

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

Nossa Igreja acaba de viver a festa magna do Natal que nos fez reviver o intenso amor de Deus por nós, que foi capaz de nos enviar o Seu Filho único para nos salvar. Em seguida, adentramos na Epifania do Senhor onde o Menino Deus se revelou a todas as nações na pessoa dos Reis Magos. E assim como os Magos manifestaram a presença do Menino Deus, hoje, cada um de nós é chamado a manifestar o amor de Cristo aos irmãos, assumindo a sua missão evangelizadora. E fazemos isso sendo Igreja nos “quatro cantos” desse imenso país chamado Brasil.

É ainda nesse espírito natalino que nos chama para a unidade que convocamos toda a Igreja no Brasil para participar do recadastramento de suas células. Essa grande tarefa se fará por meio do Censo Anual da Igreja Católica no Brasil-CaicBr 2014 e tem o objetivo de dar continuidade às atividades de pesquisa da nossa Igreja por meio do CERIS – Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais. Assim, avançaremos nos estudos ao bom desenvolvimento das atividades pastorais e dos projetos da Igreja Católica em todo o Brasil, manifestando as mudanças e as novidades que a compõem.

Após um longo período de dificuldades, especialmente para que a reconstrução das metodologias de pesquisa necessárias para a composição do Anuário Católico atendessem as necessidades exigidas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB e pela Conferência dos Religiosos do Brasil-CRB, o CERIS volta a realizar o Censo para catalogar a presença da Igreja e suas atividades no Brasil. O CaicBr se constitui na única fonte de pesquisa para a catalogação células da Igreja e para a publicação do seu Anuário oficial que demonstra essa presença com os dados de todas as circunscrições eclesiásticas, incluindo paróquias, casas religiosas, além dos bispos, padres, diáconos, irmãos e irmãs.

No entanto, o CERIS, a CNBB e a CRB não mediram esforços para que kamagra o Anuário Católico continuasse a existir, pois sabiam que a falta de uma publicação como esta dificultaria o trabalho da Igreja e o fluxo de informações que são essenciais para que ela realize seus trabalhos e cumpra sua missão evangelizadora. Daí a necessidade de, juntos, focarmos e empreendermos esforços para a atualização dos dados e a reimplantação do CaicBr de forma ininterrupta a partir do próximo ano. Nesse sentido e com o apoio da CRB, pedimos que todas as Sedes de Institutos Religiosos recadastrem, junto ao CERIS, os seus recenseadores. Essa indicação, que poderá ser feita diretamente pelo site do CERIS www.ceris.org.br, é fundamental para que tenhamos um elo seguro com toda a Igreja do Brasil para a validação correta de seus dados. Também pedimos que comprem o Anuário Católico e contribua com o CERIS nessa importante missão.

Os trabalhos continuam a ser desempenhados pela Promocat Marketing Integrado, empresa parceira do CERIS, da CNBB e da CRB para a reconstrução da CaicBr. A Promocat já está entrando em contato para realizar esse cadastramento, mas pedimos que, quem ainda não se recadastrou, que procure a Promocat para realizar essa primeira etapa. Prevemos enviar, ainda em janeiro, todos os questionários para atualização dos dados diretamente para esses representantes cadastrados como recenseadores nessa primeira etapa. Façamos todos um pequeno esforço para o bem de todos.

Pedimos que Deus abençoe, proteja e ampare toda a Igreja, e que Nossa Senhora interceda pelas suas necessidades, especialmente neste grande e importante trabalho que recomeça.

Receba o nosso abraço fraterno,

Padre Valdeir dos Santos Goulart

Secretário Executivo do CERIS e Assessor da CNBB – Coordenador Geral do CENSO – CaiBr